Entre o Silêncio e a Superação, A Voz de Uma Mulher Bipolar
Entre o Silêncio e a Superação:A Voz de uma Mulher Bipolar
Eu sou a Maria Madalena Moreira de Carvalho de Gouvêa Lemos, nasci no ano de 1956, filha de um jornalista e de uma chefe de cozinha, no Rio de Janeiro, Brasil.
Ser e viver com a bipolaridade junto a um casamento nocivo é muito doloroso, levando-me às vezes a desistir da vida.
O diagnóstico
Aceitar o diagnóstico foi, ao mesmo tempo, um choque e um alívio, pois finalmente havia um nome para aquilo que sempre sentia — um turbilhão de emoções que me moldavam e me desafiavam a cada dia.
Entre altos e baixos, aprendi que coragem é assumir a vulnerabilidade, enfrentar o preconceito e não permitir que a doença defina quem sou.
A minha história não é feita apenas de sintomas ou de crises, mas de superação diária, pequenas conquistas e a força dos laços familiares que nunca se romperam mesmo nas fases mais difíceis. Partilhar esta caminhada é tornar visível o invisível, é mostrar que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com sonhos, medos e esperança, que encontra na palavra e na partilha um caminho possível para a compreensão e a empatia.
Ser bipolar
Não sou um rótulo, mas sim pessoa.
Aceitar a complexidade de ser bipolar é reconhecer que cada dia traz consigo um novo desafio e, ao mesmo tempo, uma nova oportunidade para crescer.
Sigo procurando compreender as minhas emoções e partilhar a experiência, não para buscar compaixão, mas para iluminar o caminho daqueles que ainda se sentem sozinhos na sua luta. Ao dar voz à minha trajetória, convido à reflexão sobre o preconceito e a importância de um olhar mais humanizado para cada indivíduo que convive com o transtorno bipolar.
O meu propósito ao escrever este livro é tentar desmistificar esta doença psiquiátrica chamada Transtorno Bipolar, a qual ainda é tratada como um tabu e, na maioria das vezes, os doentes são estigmatizados como se fossem "dementes mentais”
Sendo eu portadora da mesma, penso que saberei dizer o porquê de tanto tabu e estigma.
O tabu começa por mim, assim como o estigma, e digo isto porque, no dia a dia, vejo que até os mais próximos são os primeiros a tê-los. Dizer que sou diabética não causa estranheza, mas falar de uma doença de fórum psiquiátrico tem se vergonha de o dizer.
Ser bipolar é ser estigmatizado o que me transtorna bastante deixando me triste e principalmente preocupada.
Venho tentar esclarecer melhor o pensar das pessoas que fazem questão de julgar quem sofre de transtorno bipolar e quais os sintomas quando estamos descompensados por falta de medicação adequada e falta de acompanhamento profissional, tendo eu hoje a sorte de ter ótimas profissionais como a psiquiatra, a médica de família e as psicólogas.
Afinal esta doença tem tratamento deixando-nos equilibrados com o diagnóstico adequado e a medicação eficaz para cada caso. As médicas que me acompanham são três excelentes profissionais, a Dra. Alexandra Lourenço (psiquiatra), a Dra. Ludmila Martins (médica de família), a Dra. Sónia Eusébio (psicóloga) e agora a Dra. Rita Luz (psicóloga), a quem agradeço a minha melhoria.
O cérebro como funciona em mim.
Há pensamentos misturados de uma só vez baralhando o meu raciocínio do que estou realmente a falar.
Cansativo, mas necessário para focar ao que realmente quero pensar e falar. Uma luta que não tem fim, mas possível.
Há quem diga que sou um caso de superação.
Antes do diagnóstico
Vivi anos a tomar antidepressivos e a ser diagnosticada apenas como depressiva.
Só quando os meus filhos mais velhos o Rafael e a Rebeca se aperceberam que havia mais do que depressão devido aos meus momentos de hipomania onde gastava dinheiro a mais do que podia e irritação excessiva. Levaram-me a vários psiquiatras que nada diagnosticaram a não ser a maldita depressão.
Foi então que a minha irmã mais velha a Helena, levou me ao hospital Amadora/Sintra aonde fiquei logo internada e foi aí que me diagnosticaram que eu era portadora de Transtorno Bipolar.
A descompensação era tal que até hoje não me lembro do dia que fui internada. Não me lembro de ter ido se quer ao hospital.
Quando fui internada no Amadora/Sintra na psiquiatria
Quando no internamento um dia após ser internada deu-me para gritar à hora do jantar "Viva o 25 de Abril" sendo posta fora da sala pelo enfermeiro que estava a medicar os doentes, pois não parava de gritar e depois de ser atiçada pelo mesmo enfermeiro, politicamente como reacionário atirei-me a ele que me fez uma gravata para me imobilizar levando me para um quartinho que tinha uma cama, colocando me uma camisa de forças. Quando me vi presa à cama entrei em pânico pois não consigo dormir de barriga para cima, foi aí que entrou alguém que me deu uma sossega leão (injeção) e não deu um minuto estava a dormir, só acordei de manhã completamente grogue.
Abre se a porta entra uma auxiliar perguntando se queria que me ajudasse a tomar banho ao que eu aceitei agradecendo-lhe. Uma senhora muito querida.
A família do bipolar tem um impacto fundamental
Ficar três anos sem poder ver o meu neto primogénito por terem medo que eu lhe fizesse mal foi uma facada nas costas.
Eles se sentem injustiçados (Rafael e Rebeca) pois pagavam-me a renda da casa junto com o meu irmão Rui e eu teria que me sentir aprisionada nos pensamentos deles e me anular.
Ser grata não é sinônimo de deixar de ser eu para me tornar submissa ao que eles pensam. Ajudar alguém não é usar como bandeira para quem é ajudado sentir se ingrato por ser verdadeiro para consigo mesma.
Sempre fui dona de mim e não deixo que me pisem pois já o pai me dizia que eu fosse boa, honesta e humilde, mas nunca demais para que não me pusessem o pé no pescoço, o qual respeito até hoje.
Não ser convidada para o segundo casamento do Rafael, por ele ter vergonha da própria mãe, só tinha visto em novelas. É isto que chamo de ser estigmatizada e o mais triste é que vem da própria família, principalmente dos mais chegados.
Depois a Rebeca também casou escondida de mim, até de branco foi influenciada pela cunhada imatura.
Tudo porque sou bipolar.
Ridículo nos tempos de hoje.
Quando é que lhes cai a ficha? Não é por falta de informação pois enviei-lhes vários links com toda a informação sobre bipolaridade que só podem ter posto para spam e depois para o lixo e não terem lido os meus e-mails.
As facas
Rafael, para que não tenhas medo em que eu possa fazer uso de facas.
Isso se chama de estigma.
A primeira vez que usei a faca foi em Loulé para me defender do vosso pai que vinha para bater me e eu fui de costas até a cozinha com ele andando para mim e pensei, ” estes homens que batem em mulheres não passam de uns covardes” e com a ameaça da faca parou de me seguir começando a dizer “com faca não Bebe, para que vocês ouvissem, foi quando vocês vieram ver. Nunca passou me pela cabeça usar pois ele parou de vir para cima de mim para me agredir pondo a certeza que era um grande covarde.
Depois de uns dias ele deu me um grande pontapé no ventre tendo eu que ir parar às urgências do hospital de Faro e o médico que me assistiu disse me que eu fosse fazer queixa ao polícia do hospital, dizendo me que homens que batem no ventre de uma mulher na próxima eu voltaria ao hospital em pior estado, pois ele já tinha tratado de muitas mulheres que sofreram violência doméstica.
Carta aos meus filhos
Amor de Mãe
Oi, gente, bonita que eu pari!
Hoje vou abrir o meu coração de mãe.
Sempre quis ser mãe desde pequena, estava enraizado desde que nasci, penso eu. Ter lindos filhos e educados. Deus deu-me lindos filhos maravilhosos por dentro e por fora. Se tivesse que escolher outros não o faria.
Dizer que tenho preferências, não existe, pois, amo todos como um todo.
Dei tudo de mim enquanto vocês eram crianças. Escondi meu sofrimento de um casamento bastante tóxico para que não vos causasse traumas futuros e hoje vejo que errei, porque esqueci-me de mim e deixei-vos órfãos da verdade.
Estarei sempre protegendo o que mais precisa de mim, para recuperar a sua autoestima.
Fi-lo por ti Rebeca, por causa do Tosso e dei cabo da minha saúde mental, levando me ao total descontrole físico e psicológico.
Apoiei o Eduardo com a Rita, para que fossem felizes já que se amavam.
E agora o António, com a sua linda família que me tem sempre o cuidado telefonar quase todos os dias para me tranquilizar e saber como estão os velhotes.
Nem tudo na vida são flores e todos temos direito a errar sem precisar de destruir.
Tu, Rafael, foste um bebé lindo de morrer ao ponto de na rua haver pessoas a pedirem me para te fotografar. Sempre medroso e muito cuidadoso com a pequena Rebeca que dura até hoje que acho lindo.
Eu tenho mudado o meu comportamento com a ajuda da psicóloga Dra. Sónia Eusébio que tem sido incansável para a minha estabilidade emocional. O método que a doutora usa é o cognitivo comportamental que tem sido o ideal para mim, aconselho vivamente.
Não sou perfeita por mais que eu queira e vocês também não. Há que reconhecer para mudar pois a vida é uma escola e como acredito em karma, tenho pagado um alto preço, por isso temos que estar atentos ao que damos ao outro para o que volta seja positivo.
Falar do meu amor por vocês é de uma grandeza que é difícil de explicar, mas sei que é um amor tão real que me enche o peito.
Depois deram me um milagre, deram-me os netos. Netos lindos e tão educados. Netos que me complementam e que não devem ser colocados no meio das brigas. Quando digo colocar, eu também sou culpada.
O que mais desejo é ver a minha família novamente unida, principalmente os quatro irmãos, pois um dia eu vou partir e ficam vocês para se ajudarem.
Lembro me agora da partida do Poças tão prematura que não deu para lhe falar que gostava muito dele.
A vida é um sopro e pode não haver tempo de perdoar e ajudar.
São 5.30h e tinha que vos escrever para vos dizer que o meu amor é mesmo incondicional, nada explica como uma mãe pode amar tanto os seus filhos.
Fui à médica de família na sexta-feira e ela adorou me ver disse que era incrível a minha mudança. Estou com um probleminha no coração próprio da idade. Emagreci 10Kg, o que me favorece.
A minha autoestima está bem melhor devida também à cirurgia que fiz à vista
A primeira não resultou e tive que fazer outra de novo. Agora voltei a maquiar me e estou me achando maravilhosa.
Espero que não se esqueçam que vos amo de montão.
Beijos saudosos,
Mãe
Suicídio
Pesquisei muito sobre este assunto pois vivi quatro vezes a tal lavagem ao estômago por ter ingerido medicação em excesso devido a uma dor horrorosa no peito e a cabeça numa depressão com a pouca ou nenhuma vontade de viver. A solidão era enorme e conforme a medicação ingerida ía amenizando a dor para eu passar a uma leveza total. Conseguia ligar para o 112 apenas para ouvir alguém do outro lado. Eles se apercebiam e enviavam uma ambulância que me levava para as urgências do hospital São José para ser feita a horrível lavagem estomacal.
Falar em suicídio também é um tabu para superar se. A mim, os filhos mais velhos, de novo, o Rafael e a Rebeca, dizem que é apenas para chamar a atenção, quem dera que assim fôsse, a dor é bem maior do que o amor que tenho por eles.
Ultimamente, devido a uma vida regrada sem falhas na medicação e rodeada de pessoas do bem e muita terapia, não tenho pensamentos suicidas.
Nunca mais tive que ser internada.
Tudo é uma questão de estar rodeada de todas as frentes para superar pensamentos negativos ou megalómanos.
É uma doença mental por isso há que a combater também com o cérebro, não basta a medicação, mas sem ela não há equilíbrio mental. Tomá-la sempre conforme prescrito pelo psiquiatra é fundamental. Demorei a fazê-lo e andei completamente descompensada durante anos.
Assumir a doença foi superpositivo para o meu bem-estar psicológico.
Andar na contramão sempre foi o meu caminho e por isso continuo a lutar contra o pessimismo substituindo pelo positivismo. É como uma ginástica cerebral, como diz a Dra. Sónia Eusébio. Ao princípio custa, mas depois já é quase automático. Os pensamentos mistos ao mesmo tempo, são cansativos e deprimentes. É com o meu esforço que mantenho, perante os outros, a sensação que eu estou bem, quando no fundo o que às vezes, quero é chorar.
O meu pai
Contarei algumas passagens de momentos com o meu pai, os poucos que me lembro, pois, as memórias vão-se esquecendo.
Para muitos nada significam, mas para mim vivem até hoje com o doce sabor de amor.
Houve um dia na década de 70 depois da matiné de cinema na Beira, Moçambique, sentei me à mesa com o pai enquanto ele comia, e comecei a contar-lhe o filme quando aparece a minha mãe dizendo me que eu deixasse o pai em paz e o pai respondeu "deixa-a lá pois a Bebé consegue fazer do relato dela maior do que o próprio filme". Soube me tão bem!
Todos os fins de semana íamos à praia e o momento mágico era irmos para o mar com o pai e ele punha nos aos ombros para mergulharmos. A minha mãe sempre alerta com a saúde precária do seu grande companheiro pedia que nós parássemos pois éramos seis e o seu esforço poder-lhe-ia ser prejudicial. E vinha me à mente o que a minha mãe nos dizia " o vosso pai pode partir a qualquer momento "
Outro momento era quando o pai ía buscar nos, a mim e à minha irmã Helena, ao Liceu Pêro de Anaia na Beira, Moçambique e deixava nos segurar o volante para guiarmos.
Coisas tão simples para um adulto, mas que nos enchiam de felicidade a nós então crianças.
Outra memória que me vem à cabeça é de quando ouvia o carro do pai a entrar na garagem para vir almoçar, eu e a minha irmã Helena brigávamos para prepararmos o whisky com gelo e soda que ele gostava de beber enquanto esperava o almoço ficar pronto, ouvindo os seus discos de jazz.
E claro, não sai do meu sangue, as idas ao Zónué em Moçambique, às fazendas dos meus amados tios aonde juntávamos 15 primos. Era um sonho tornado real. Ali me sentia super aconchegada. As brincadeiras eram muitas, não havia televisão por isso, sabíamos criar brincadeiras para o dia todo. Éramos muito felizes e sabíamos.
Vivi esses momentos até aos meus 18 anos. De lá seguimos para o Rio de Janeiro, Brasil.
A minha mãe
É com muito orgulho que falo da minha mãe.
É difícil defini-la tal o tamanho que foi a sua importância na minha vida.
Estava acima de tudo, levando me coragem para aguentar a minha própria vida.
Nunca a vi baixar os braços nem nas piores tormentas.
Uma mãe exemplar, amorosa e preocupada com o seu rebanho, tapando os buracos das suas vidas
Hoje ainda me faz falta os seus conselhos.
Voltando aos meus quinze anos de idade.
Foi com essa idade que o meu amado pai faleceu
Enquanto dormia estava bem tranquila sonhando como tudo o que se passava em casa não passava disso mesmo, um pesadelo…
Puseram-me a dormir por uma semana só acordando para comer e com idas à casa de banho, pois eu entrava em histeria quando ouvia algum dos meus irmãos a chorarem. Não queria que ninguém chorasse assim como eu não o fazia.
Depois diminuiram a dosagem do Xanax ficando mais tempo acordada tentando me inserir na família. Já não havia muito choro, não querendo dizer que a dor dos meus irmãos tivesse diminuído.
Só que não queria falar com ninguém, mantendo me calada por um mês, estava tentando me situar entre eu e o pai. A relação que tinha com ele era de fã para ídolo, sempre foi o meu herói, o meu orgulho. Era um excelente jornalista, sempre imparcial e considerado por grandes intelectuais moçambicanos, mais conhecido por Gouvêa Lemos.
Quando ía à rua via o meu pai a entrar numa loja ou dentro de um carro que passava e do nada desaparecia. Foi num dia que saí com a tia Marta, no Rio de Janeiro e comentei com ela o que vía e disse me que era normal pois fazia parte do luto pois ela vivenciou o mesmo quando perdeu o seu pai. Com o tempo deixei de o ver.
Com a partida dele, se foi um bocado de mim.
A adolescência
Agora começo por falar da minha infância que foi de uma criança feliz até então aos quinze anos perder o pai fazendo que a mãe e o meu irmão mais velho decidirem que voltaríamos a Moçambique mais precisamente Chimoio (Vila Pery) para ficarmos perto dos tios e primos que nos acompanharam desde bem pequeninos.
Nada havia de anormal no meu comportamento, apenas uma adolescente irreverente, própria dos anos 70, com amigas do peito e amigos a quem éramos chamados de freaks. Cabelos compridos, calças à boca de sino, vestidos compridos e chinelos de couro com solas de pneu.
Vivi dois anos e meio maravilhosos, junto a pessoas do bem com a vida que muito me ajudaram a amenizar a dor da falta do meu pai.
Adorávamos ver o pôr do sol na rotunda da vila.
Andar de mota era um divertimento que os amigos proposicionavam ao emprestar-me a moto, com a minha mãe à varanda a mandar me andar mais devagar.
Como era bom aquele ar na cara, dava a sensação de liberdade.
O começo do inferno
Chegando ao Rio de Janeiro comecei a trabalhar no Banco Veplan, com 18 anos, como rececionista para ajudar nas despesas da casa da mãe.
Foi aí que apareceu o que seria o pai dos meus quatro filhos. Tinha apenas 19 anos, mas achando que seria feliz.
Mal sabia eu que me tornaria uma pessoa da mistura de tristeza absoluta ou euforia excessiva, devido aos maus tratos que o pai dos meus quatro filhos me dava.
Ouvir o barulho da porta sabendo que era ele a chegar a casa me punha tensa. O que me esperava aquela noite?
Depois das crianças estarem deitadas começava a pressão para eu telefonar para o meu irmão Rui para pedir dinheiro emprestado o qual nunca foi pago.
Um dia depois de ele me agredir fisicamente disse lhe que ía telefonar para o meu irmão José Maria, foi quando ele começou a implorar me que não o fizesse, mas telefonei assim mesmo para que o meu irmão, desse um basta naquilo.
Quando o meu irmão chegou eu estava no quarto e comecei a dizer que a culpa era minha (próprio de vítimas de violência doméstica) e vi o meu irmão quase a atirar se ao covarde.
As alturas que engravidava sentia me plena por carregar um ser que era meu e havia respeito pela parte do outro.
Depois começava de novo a violência física, psicológica e sexual.
Não contava a ninguém o que se passava lá em casa e sempre mostrava exatamente que tudo era belo pois os maus tratos eram feitos quando as crianças dormiam e sem ninguém estar presente.
Houve tentativas por minha parte de divorciar me, coisa que a minha família achava loucura da minha parte visto que para eles o outro era o marido exemplar. “Poderia mesmo ser um psicopata”?
Vinham as desculpas que não voltaria a acontecer de novo e lá vinha mais uma gravidez, pois quando me separava deixava de tomar a pílula.
Foram 24 anos de sofrimento sem ninguém perceber, nem mesmo com as lágrimas a correrem me pelas faces pois já não controlava nada a não ser pôr um sorriso nos lábios para que as crianças então não percebessem.
Num dia e agora já com a presença dos filhos mais novos, numa nova discussão ele deu-me um grande pontapé no ventre, ficando bem dolorida indo parar às urgências do hospital de Faro aonde fui atendida por um médico que ao saber o que se tinha passado disse me para que quando descesse do andar aonde ficava o consultório eu fosse fazer queixa ao policial que estava na entrada e sendo firme disse, minha senhora homens como ele quando partem para pontapés no ventre a próxima vez você voltará bem pior.
Fui ter com os meus amigos que me levaram ao hospital e falei lhes sobre o que o médico tinha falado que levou à dúvida se dava queixa ou não, achamos por bem não denunciar pois podia custar-lhe o emprego e dizer-lhe que tinha feito.
Uma outra agressão numa nova discussão sem ninguém em casa, esse ser agarrou-me pelos cabelos e arrastando me pelo corredor de costas arrastando as costas pelo chão. Eu estava com uma caneca de plástico pois andava a regar as plantas e dei-lhe com ela na testa abrindo-lhe um pequeno corte ao qual fez um pouco de sangue, ele se aproveitando quando chegou a minha amiga Tânia com os meus filhos para se pôr em posição de vítima, eu era sempre a má da fita.
Foi aí que parti para o divórcio, a melhor atitude que tomei.
Segurei este casamento durante 24 anos para dar um lar completo para os meus filhos para chegar à conclusão que estaria a tornar os meus filhos infelizes, principalmente o António e o Eduardo, pois os outros dois já tinham saído de casa
Para mim, ser mãe era o melhor que havia em mim, não podia continuar com este horror.
Claro com o que se passava a minha bipolaridade espoletou.
As agressões pioraram depois de virmos morar em Portugal. Os dias só eram melhores quando ele não estava em casa.
Ele tudo fez para que eu saísse de casa e a violência era constante. Até que o meu primo João foi lá a casa para a filha brincar com o Eduardo, disse-me "Bebé, deixa de cozinhar, passar a roupa e tudo o que fazes para ele e aí sim ele sairá cá de casa"
Assim o fiz e mudei me para o sofá cama da sala.
Foi uma luta dolorosa pois ele falava alto quando chegava à noite, comigo já deitada ligava a televisão aos berros e punha se a falar coisas horríveis que eu tentava não compreender. O medo era maior.
Mas consegui e como foi maravilhoso aliviar a tensão tão negativa.
Sobreviver com esta doença é doloroso pois o cérebro mais parece uma montanha russa, devido a várias sensações ao mesmo tempo e ter este casamento nocivo não ajudava em nada.
Meu filho Rafael
Não tenhas medo Rafael, o estalo que te dei na casa da Amadora foi por tu teres levado a Filomena a minha casa sem ser convidada, para levarem-me para um hospital, não sei qual. Um estalo de afugentar moscas tal a pouca força.
Eu sou bipolar e não maluca, Rafael.
Cumpro com o acompanhamento de três grandes médicas, cada uma na sua área e tenho conseguido dar grandes passos para a melhoria do meu psíquico.
Netos meus
Arrancaram-me os netos.
O coração sangra!
Dói-me até ao corpo chegando à alma.
Arrancaram-me os netos.
Falta do olá deles, do beijo na face e cheiro de netos.
Saudades das conversas de avó e netos.
Dói-me a alma.
Minha sombra é o meu espelho.
Arrancaram-me os netos.
Tiraram-me um bocado da alma
A minha adolescência
Foi passada em Moçambique a minha adolescência
A ida do Rio de Janeiro para o Chimoio em 1972 foi a melhor terapia que poderia ter tido.
Lá voltei ao colo dos meus entes queridos que tudo fizeram para eu me sentir segura psicologicamente e estar com os meus melhores amigos.
Poder vivenciar a minha adolescência como qualquer garota dos anos 70.
Faltar às aulas, fazer boicote às batas brancas que na altura se usava e conseguir o resultado positivo.
Lutar para a volta às aulas de um colega que tinha sido expulso pelo diretor injustamente e poder ir a correr avisá-lo que podia voltar.
Tudo vivido com muita adrenalina, próprio de uma adolescente de 16 anos.
Foram dois anos e meio bastante aconchegantes.
Obrigada família e obrigada amigos do peito!
Como a vida é ingrata.
Quando paro de sofrer Senhor?
Isto é o que chamam de vida?
Aonde para a felicidade?
Já não me bastava a bipolaridade agora também sou diabética!
Mas vou vencer esta luta nova e mostrar me que sou capaz.
Depois vem a dor que os meus filhos mais velhos colaram no meu coração.
Trataram me como fosse um animal predador.
O estigma da minha doença bipolar vem mais deles do que outras pessoas que nem minha família são.
Não posso chamar de ignorância pois enviei-lhes vários links a falar da mesma.
Têm medo de mim, logo eu que tudo lhes dei.
Foram mais afortunados que os dois irmãos mais novos.
Sofri por eles, não por mim, durante 24 anos de casamento e para quê?
Nada havia de anormal no meu comportamento, apenas uma adolescente irreverente, com amigas do peito e amigos a quem éramos chamados de freaks, nos anos 70. Cabelos compridos, calças à boca de sino, vestidos compridos e chinelos de couro com solas de pneu que o sapateiro fazia à medida.
Vivi dois anos e meio maravilhosos, junto a pessoas de bem com a vida que muito me ajudaram a amenizar a dor da falta do meu pai.
Em 7 de Setembro de 1974, após o 25 de abril, estava em Maputo, quando houve uma rebelião derivada aos reacionários, como o Engenheiro Jorge Jardim, de então não aceitarem que Moçambique fôsse entregue a quem de direito, à Frelimo na altura.
Fica em baixo o link do que se passou.
https://ensina.rtp.pt/artigo/a-revolta-do-radio-clube
Foram momentos bem intensos só apaziguados com a presença da mãe que protegia os cinco filhos, já então viúva.
Vi paióis em labaredas, carros também, tiros ao ponto de ter que dormir no chão com os meus irmãos e a minha mãe devido aos mesmos.
Não se podia andar na rua durante o dia.
Foi quando eu disse à minha mãe que eu iria para o Brasil pois sabia que o consulado do Brasil pagaria a minha passagem como brasileira que sou.
Qual o meu espanto quando ela disse que iríamos todos, pois a situação era grave.
Foi aí que embarcamos num navio cargueiro.
O meu irmão mais velho já tinha ido pois estava na idade de ter que se apresentar na tropa e assim não ser obrigado a ir como era na altura.
• Pensamentos
• Voam me imensos pensamentos
• São bons e fazem me emocionar.
• Mais parecem nuvens brancas num céu azul longínquo.
• Assim fazem me viva.
• Pensamentos aleatórios se embrulhando em nós cruzados.
• Vistos por olhos atentos e criando bonecos de neve.
• Está frio agora pedindo uma manta macia.
• Pode ser de cetim da cor do céu.
• Pensamentos que vão fugindo para voltar à realidade.
• 24/06/2025
Filhos e netos, minha vida!
Se houve alegrias na minha vida de casada, foram os filhos e sobrinhos que me davam gana de viver.
Que gostoso que eram as suas gargalhadas e até os choros de alguma briguinha que tinham. Tratar do ritual de todos os dias de tantas crianças faziam me sentir viva.
Só que cresceram e como é normal seguiram suas vidas e constituíram as famílias deles, dando me netos maravilhosos.
https://www.institutomariadapenha.org.br/violencia-domestica/ciclo-da-violencia.html
Link sobre o ciclo de violência doméstica
Assim vivi eu durante 24 anos.
Já nada sentia por aquele ser que dividia a cama comigo, quando ele pedia me para termos relações ao qual eu negava umas cinco vezes sem interrupção até ter a noção, que haveria confusão e antes que isso acontecesse pois as crianças poderiam acordar, acabava por ceder.. Sentia nojo de mim mesma e chorava durante o ato e quando ele saciava se virava para o outro lado e dormia enquanto eu continuava a chorar até adormecer. Resolvi então mudar me para o sofá cama da sala e já estar deitada com tudo apagado e as crianças a dormir era quando chegava o monstro para me atazanar a cabeça ao qual eu fingia que já dormia. Ligava a televisão aos berros e insultava me com ameaças as quais eu não respondia lhe mantendo me em silêncio o que o deixava mais irritado. Foram tempos de sobrevivência a qual tornei-me forte.
Pelos meus filhos tudo fazia para que eles não sofressem.
Hoje, com o saber da vida, faria tudo diferente e teria acabado com essa ralação mais cedo.
Muito tenho vivido momentos maravilhosos e outros nem tanto.
O que seria dos bons momentos sem os maus? Como saberia defini-los se não houvesse um termo de comparação?
Volto a escrever pensamentos que vão me na cabeça com a aprendizagem da vida já longa.
Muito tenho vivido, momentos maravilhosos e outros nem tanto.
21/03/2025
Pensamentos confusos
Hoje o dia está tenebroso, ouve-se o vento lá fora e a chuva não abranda..
O estado psíquico está igual ao tempo, a chuva derrama se nos meus olhos, o coração palpita feito trovoada.
Tenho medo, medo de terminar a vida que me foi dada pela minha mãe, tal a tristeza que abala o meu cérebro.
Estou cansada psiquicamente.
Viver com a bipolaridade exige terapia contínua.
Descansar depois do almoço é doloroso pois deito me positiva e do nada deprimo.
Os pensamentos vêm os tempos mais dolorosos que vivi e temo voltarem. Mais parece um interruptor que ilumina e com um toque apenas se torna escuro, pondo um nó no peito.
A solução é levantar me e ir para a varanda fumar um cigarro e apanhar sol.
Volta a paz interior.
O companheiro
O grande apoio foi ganho há 8 anos quando apareceu na minha vida um grande companheiro que tem a paciência de me aturar.
Com ele encontrei o equilíbrio que ainda me faltava, como tomar a medicação a horas, deitar-me cedo e levantar-me cedo, ter uma vida regrada. Tudo essencial para manter-me longe de internamentos.
Hoje sou uma mulher empoderada.
Foi uma mudança tão grande que passou para o exterior.
Voltei a gostar de mim e a cuidar-me.
Terapia com animal de estimação
A Minnie veio para mim há 1 ano atrás.
Sempre tive animais de estimação, mas por 9 anos deixei de ter por estar a fazer o luto dos últimos 4 que tive e me foram tirados.
Depois comecei a dar atenção aos cães na rua e a vontade voltou.
A minha esteticista sabendo o quanto queria adotar um cão pequeno e já idoso, enviou-me uma fotografia da Minnie, vinda de uma criadora de Spitz Alemão Anão, ao qual apaixonei-me logo.
Ela foi criada para ter filhotes e já estava com 9 anos, não podia engravidar mais.
A senhora queria uma adoção responsável e assim a Minnie veio e é uma fonte de terapia. Tudo nela é perfeito e o cuidar dela faz me muito bem.
Escrevo intercalado pois é assim que funciona o meu cérebro.
Começo num tema e passo para outro rapidamente e depois volto ao anterior e assim sucessivamente.
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